O que é candomblé

23/05/2012 21:07

O que é Candomblé

Candomblé é uma palavra de origem yorubana que significa festa, ou o nome que se dá ao local onde são realizadas. Esse termo acabou por designar o conjunto de crenças religiosas das diversas etnias africanas, reunidas no Brasil em consequência do processo de escravidão.

Esses povos foram arrancados de sua terra natal e obrigados a viver ao lado de outros, também de origem africana, porém de diferentes regiões. Por isso, houve grande perda da identidade nacional.

A desintegração cultural foi grande, inclusive no que diz respeito aos antigos rituais religiosos, que eram um importante elo de ligação para esses povos. Houve a necessidade de se eliminar as diferenças regionais e promover a união em torno de interesses comuns. Estabeleceu-se, então, um intercâmbio através da troca de informações e conhecimentos entre as diversas nações, possibilitando, assim, o surgimento do Candomblé como conhecemos hoje.

Nos três séculos de escravidão, muitos grupos étnicos entraram em nosso país, como benguelas, cabindas, yourubás, ijeshas, haussas, fantis, ashantis, minas, bantos, congoleses, fulanis, fons e oyós, entre outros. É difícil precisar o montante de africanos que aqui chegaram, ainda mais se levarmos em conta que os documentos oficiais, referentes ao tráfico negreiro, foram destruídos logo após a abolição. Mesmo assim, alguns estudiosos admitem que esse número gira em torno de doze milhões. Uma grande parte dos negros não conseguiu desembarcar aqui, morrendo durante a viagem devido ao péssimo tratamento que recebiam. Além da fome e das doenças que os acometiam, era também muito usual jogá-los ao mar para compensar o excesso de carga.

Segundo os conceitos da época, os negros eram seres ignorantes e desprovidos de humanidade, que possuíam uma religião composta por rituais bárbaros e pagãos. Sendo assim, a religião tribal foi proibida, e o Cristianismo passou a ser imposto, inclusive com a adoção de novos nomes para essas pessoas. A catequese, realizada pela Igreja Católica, ajudava na submissão desses povos, diminuindo os riscos de rebeliões.

Apesar de proibido, o culto aos orixás não foi abandonado. Os negros usavam imagens de santos católicos para disfarçar os assentamentos, que ficavam enterrados.

Por esse motivo, o sincretismo entre estas duas religiões, na minha opinião, é impossível. A aproximação que se deu entre santos católicos e orixás foi feita por necessidade, e não por devoção. Acredito que, intimamente, os escravos sentiam desprezo e ódio pela nova crença.

A religião africana, ao qual se deu o nome de Candomblé, é uma das mais antigas crenças do homem e deve ser respeitada como tal. Ela possui alguns rituais sagrados e secretos, onde são realizados oferendas de animais. Nessas ocasiões, além do próprio babalorixá, ogans e ekédes, alguns iniciados são escolhidos para participar, conforme seu grau de desenvolvimento espiritual. Muitas pessoas, que não conhecem o significado desses atos litúrgicos, os rotularam de primitivos e bárbaros. O que eles talvez não saibam é que muitas religiões antigas também imolavam seus cordeiros, existindo, Candomblé vem tentando manter-se fiel às suas origens, podendo, assim, preservar sua essência; por isso, não podemos admitir modismos e inovações. Todos aqueles que nos criticam precisam saber que a maior parte da carne oferecida nos rituais é servida em nossas festas públicas, onde todos são convidados a comer. É o que chamamos de comunhão com os orixás.

O objetivo dessas obrigações, que envolvem o sacrifício de alguns animais, é a obtenção de força ou “axé”, tanto para a roça de Candomblé, quanto para seus membros e participantes. O axé, palavra tão popular atualmente, nada mais é do que a energia que emana dos orixás, sendo que, de tempos em tempos, precisa ser renovada e acumulada. Todas as roças precisam plantar o seu axé para fazer com que seus rituais funcionem. O sangue utilizado para esse fim é, para nós, o princípio gerador da vida, o que nos mantém vivos e em desenvolvimento. Nós, do Candomblé, não bebemos esse sangue – ele será oferecido no local apropriado para cada orixá. Fico horrorizado quando vejo nos jornais notícias onde mostram pessoas criminosas, que matam seres humanos, muitas vezes crianças, para oferecer seu sangue em rituais macabros. E o pior é que jogam a culpa no Candomblé. ISTO NÃO TEM NADA A VER COM NOSSOS PRECEITOS E RITUAIS. Alguém, que comete um ato hediondo desses, não pode pertencer à religião alguma. Eu lamento muito que fatos como esse ainda aconteçam!

Nós adoramos e defendemos a vida em todos os sentidos. Ela é um presente de Deus e cabe a Ele tirá-la. Acreditamos que nascer aqui, neste planeta, é uma oportunidade rara, por isso temos de valorizar e aproveitar ao máximo nossa existência. Mesmo quando nada mais parece valer a pena, é preciso viver o melhor possível. Toda a experiência acumulada no decorrer de nossas vidas será de grande valia para nosso desenvolvimento espiritual. Por esse motivo, o autoconhecimento é fundamental para nos ajudar nessa caminhada. Cabe a nós, babalorixás, a missão de ajudar as pessoas a encontrarem o seu EU, ou essência, e a partir daí, conseguirem o equilíbrio necessário para compreenderem os desígnios da vida.

       Além da vida, o Candomblé também exalta as forças da natureza. Muito antes de qualquer ecologista, nossos antepassados já a defendiam e cultuavam. As folhas, os rios e mares, os minerais, enfim, todos os elementos naturais que compõem a terra, são muito importantes para nós. Eu aprendi, com meu zelador, a ouvir e a sentir o movimento da natureza. Isso é perfeitamente possível e imprescindível para o tipo de trabalho que desempenhamos, e não tem nada de sobrenatural nisso. Temos de possuir o conhecimento do fogo, da água, da terra e do ar, e também dos elementos que os compõem. A natureza comunica-se conosco, basta saber interpretá-la corretamente. Ela nos auxilia, por exemplo, a saber se uma determinada oferenda está sendo colocada no local adequado, se não está faltando nada, se o tempo está favorável, se é preciso esperar que algo aconteça antes de continuarmos, se o orixá está satisfeito, enfim, são vários os detalhes que precisam ser observados para o sucesso do nosso trabalho. As experiências que fazemos com as forças da natureza são maravilhosas e, precisam ser vivenciadas. É uma pena que, nos dias de hoje, muitas casas de Candomblé estejam fixadas nos grandes centros urbanos, dificultando, e muito, o equilíbrio e o entrosamento com a natureza.

       Para terminar, quero dizer que, ao contrário do que muitos pensam, o Candomblé é uma religião monoteísta, ou seja, crê em um único Deus, a quem chamamos de Olorun. Os orixás, de quem falaremos mais adiante, foram criados por Deus para ajudá-lo no processo de criação do mundo e de tudo o que nele existe. Nós não podemos ser comparados a idolatras porque não cultuamos ídolos ou imagens. Como já tentei explicar, o que almejamos é adquirir o máximo de conhecimento possível para manipularmos as forças da natureza a nosso favor, e é nesse contexto que se inclui o orixá, o qual habita e domina esses elementos. Também não somos adoradores do demônio, nem praticamos rituais satânicos, como pretendem muitos que ainda insistem em proclamar essas calúnias a nosso respeito. É muito difícil compreender o fato de que Deus, em sua infinita sabedoria, possa ter criado um ser tão maligno e tão forte que vá contra ele mesmo!!!